Domingo, 5 de Julho de 2009

a roupa negra do portador de tulipas







Beijos com mertiolate e absinto no colchão vespertino da Colômbia.

O portador de tulipas negras me liga e me espera
Ontem à noite, o que fiz foi soltar a fivela.
Estive
com todas as roupas,
enquanto meu pinto afora lhe devorava,
na canoa,
espinhos macios e encantos da mata.

Morei ontem à noite nos buracos do colombiano
enxertei flores em sua pele negra de amianto.
Se antes investi um bocado em neuras,
hoje faço nascer nacos de carinho nas urdiduras
de um macio vaso sanguíneo à minha escuta.

Beijos com mertiolate e absinto. Nu coxão fecenino, num meretrício da Colômbia.

Leveza

Eu vim da água. Corpo jogado para trás, jangada. Penetrei a mágoa. Invadi o abismo, sossego marítimo para párias. Eu vim da calma, mas emergi do desespero. Suplantei o carinho na âncora do peito. Destreza no puxar, pelo mamilo, coração. Nada de sopro, o esquema é outro: remela e tripa. A remela no olho de Deus, tripa no cálice do desejo para ninguém. Eu vim da mágoa. Tijolos e arquitetura ganchados, o movimento helicoidal. Consciência desperta. Boca e olhos molhados a sorrir. O sangue nunca teve a textura da fala, antes se cala para ouvir a voz rouca do teu desprezo. Leveza para anões. Esquece minha brasa. Firmeza. O contorno se fez plasma, o corpo já morreu, incapaz de gozar. Freme o timbre. Tua cama nunca se fez colibri. Eu afundo na palma do teu carma. Da carne putrefata. Eu não vim por nascer. Eu vim da mágoa.


(publicado originalmente em coletivoliterario.blogspot.com, 30.jun.2008)

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

semântico e doce

Talvez, se eu fosse otário, uma nova andorinha pudesse zarpar de meu seio. Mas não, não sou tão otário assim: tenho ciúmes.

E vaidades.

E centelhas que ardem quando chega a tarde.

O alicerce se fez sob mil formas que se deleitam. Joguei todas as formas fora em troca de um único rapaz. A bunda dele se fez enorme, meu caralho tornou-se seu capataz. A fidelidade é indigna de sobreviver no antro de bobos rapazes. Então o namoro é torpe, no sentido de torpe mesmo que o colombiano lhe dá: torto.

Torturas mis avançam sobre meus sentidos. Pego a migalha de pão que deixei cair, enfio na boca com desprezo. O pão é o que o diabo amassou. Amasso teu corpo também, com desprezo _ como quem mata o chão para o amante melhor cair.

Digo por incompostura. Não há forma que se aguente à doce vida. A vida doce, no meu peito foi-se. O que sobra é o desterro. Melhor seria saborear o enterro de quem sonha acordado a sobrevivência do próprio peito.


Já posso auscultar a morte. No seio de quem sonha a sorte. Que você morra por inteiro.


(texto concebido também sob proposta de Chico Prosdócimi. Cf. 'Fita Amarela', em chicopros.blogspot.com)

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Acompanhado

Chico está em seu quarto, quitinete no centro da cidade. Obviamente, entediado. Jurupinga vazia, devedês escrotos que de nada prestam ali fazendo sala. Mobília instalada essa do desamparo citadino, de quem quer organizar a vida, mas faz da sina um gato e sapato.

Chico está instalado nos orifícios do armário. Faz isso com gosto: pega a cinta, retira-lhe a fivela. Joga a fivela no canto do quarto, pega a cinta e a circunda no cu. Faz entrar uma onça cobra. É pantanal sim senhor. Deixa eu vir pra onde espia esse buraquim, Chico. Olha que coisa grande entra nessa cachola, olha como esse cu é uma porta de entrada, uma excelente portinhola, pruma guerra naval em que você, Chico, é um antro de favelados a espera de melhoras. Todo favelado toma no cu. Alguém pode pensar 'é hora dos de boa grana tomarem no cu também'. Pois bem, concordo, mas começar pelo quê?

Enfiando-lhes um rodo no cu. Puxando a água desse abismo. Escutando o ódio intranquilo dos pobres.

Chico está ruminando em seu ventre um novo solilóquio: é hora de destronar a vertente que se ilude com a porquice dos poros pobres: é preciso enriquecer-se em autonomia, é preciso esquecer a vergonha de ser pobre e caminhar com a cabeça erguida, fomentar próprios horizontes da crescida, crescida bem esclarecida mesmo.

O teatro é preclaro. são poucos os elementos do cenário: um armário, uma fivela, um cinto, um cu e um quarto. Chico circula por isso tudo. Chico é estrela. Chico dá o cu às terças-feiras. Odeia-se no pormenor dos poros.

Domingo, 14 de Junho de 2009

No espelho com Romiéri

A gente vai assim sem planejar num duelo metafísico. Com poucos recursos financeiros para aleitar metafísica em plurissentidos vocais, mas não é que a voz é tanta que posso despejar tudo no cais e fazer florescer novas espécies de peixes? O que é fértil nunca me trai. Isso o mais estranho de metafísicos como nós, sempre despejando porra no vazio da palavra, sempre no antefruto, sempre no hálito forte da bagaça, aquele hálito puro que se revolta adolescente contra deus e o mundo.

O mundo filial. Aquilos no mundo que fazem o homem chorar de raiva e querer reverdecer num antesentido louco de palavras. Mas para onde crescer, afinal? Aquilos loucos são como possessões. A loucura é sempre impertinente, gruda feito tesão de adolescente. Podemos ser assim sempre jovens, então.

Selvagens diante do espelho. O esquizo pleno. O pau duro da bagaça. O orifício cheio. O figo, a fruta, o fio magro da buça, orvalho susurra efeitos. Sem identidades, Romiéri, podemos navegar no quebrantado das caras. Mas quero um abraço, de um espelho útero que não me retalhe, afinal.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

o concreto desse miolo

"Como era da política do programa a reintegração do menor ao meio de origem, fortalecendo a família e a comunidade, a permanência de menores que já haviam abandonado suas casas e viviam na rua, nesses subprogramas apresentava complicações dificilmente resolvidas como se planejara inicialmente. Isto porque, em muitos casos, a volta à família era impossível, ou porque o contato com ela nunca era feito, ou porque os conflitos eram considerados demasiadamente graves, o que os deixava em situação de semi-internos das unidades que integram o Circuito. Ainda que o regime fosse aberto e o menor pudesse sair para a rua quando quisesse, para aqueles que se conseguia manter no CAM, este se tornava a sua referência mais próxima de uma moradia, mas com os efeitos ainda perversos da falta de individuação e da convivência imposta no local com os outros menores mais envolvidos no mundo do crime, estes sempre voltando à rua. Tais processos são comumente apontados como característicos das instituições repressivas convencionais. A solução para este dilema ainda não estava clara, até porque nem todos os agentes envolvidos no programa tinham consciência dele. A solução talvez estivesse na equipe de psicólogos que tentava minorar os problemas com conversas informais com os meninos e as meninas do CAM com o objetivo de falar abertamente sobre a possível influência dos mais velhos ou mais experientes no crime. Ou a simples separação dos jovens mais envolvidos com o crime organizado, sempre em busca de menores para trabalhar às suas ordens."



Alba Zaluar, Cidadãos não vão ao Paraíso, 1994.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Em felicidades (sob carinho)





Com calor funde-se o momento. Há dois lados para se contar uma história, mas são muitos os tormentos. Disseram que o mundo é tridimensional, que basta uma olhada ali, logo adiante, e o mundo se abarca inteiro, num único caminhar, sempre solteiro, sempre acompanhado mas no momento decisório certeiro, sozinho.

Havia uma mulher defronte ao tanque. Lavava roupas do marido e do filho e havia um único tanque para várias famílias acomodarem seus dias a dias estanques. São válvulas que escapam sob os testículos dos maridos e dos ex-maridos e dos padrastros e dos muitos filhos e filhas que vêm compôr o mundo dos que trabalham para manter uma estranha unidade, mas muito familiar: a família.

E são tantos os testículos que atravessam os mares, e são tantas as armas que do meu testículo, que habita uma miríade de fantasmas, sou mais que um filho. Sou um perdedor social, debaixo da morte de muitos filhos.

Há espaço para a martirização, mas há espaço também para muitos filhos, espúrios, sem mar, sem terra, palpitando a seda por sobre a merda. E são muitas as felicidades, mas vestidas sempre, as felicidades, sob a forma de poucas algumas. É um barroco eterno elixir para se perpetuar a espécie, é um louco cadarço que me conduz sempre para novos espermas. O do mundo, o meu, quando abro as pernas para o mundo que não é seu nem meu.

Palpitando no escuro, fervilhando. Uma escuridão cabe sempre num antro. O antro não é seu nem meu. é do absurdo. E da injustiça que chafurda em felicidades. É do mundo construído sob mundos, angiospermas e perseus.